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Máscara e sombra



Somente quem tem coragem, vontade de encarar, ver, cheirar, tocar e desenterrar a própria sombra pode encontrar a luz, a esperança que alumbra a vida.


Estamos obcecados pelo mito da perfeição e pelos modelos ideais que queremos mostrar, encarnar, vestir e encenar no dia a dia. Queremos fazer sobressair uma personagem que não somos, uma máscara que não nos pertence, que não é verdadeira, mas que é aceita, valorizada e reconhecida pelos outros. Entretanto, dentro de nós vive uma outra personagem, um outro Ser que não conhecemos. Não pode ser visto, muitas vezes é inconsciente, outras é simplesmente sufocado ou na sombra, embora nos guia e conduz.


Reconhecer o lado escuro, dar-lhe espaço, não subjugá-lo, mostrar disponibilidade para acolher as energias mais ocultas, abre o caminho da felicidade. Pois, muitas crises e traumas nascem porque resistimos, porque não conseguimos acolher, entender e decifrar os pedidos e as mensagens da alma e nos acostumamos a viver e vestir no conforto de uma identidade social, rígida e engessada (máscara).


Segundo Grinberg, a dor da consciência de conviver com estes sentimentos dolorosos e a incapacidade de se confrontar com a própria sombra produz alguns mecanismos de defesa do ego (projeção, negação e repressão) que atuam para dissociar a consciência da sombra, mas que tem um custo alto para pagar (culpa, ansiedade, depressão e diversos sintomas corporais, além de falta de realização individual). Assim o indivíduo é cindido em dois, luz e sombra, num dualismo dialético e bipolar do humor, da personalidade e do caráter sem encontrar a síntese, a reunificação e a re-pacificação.


Ter cura, encontrar a cura dos males psíquicos que afetam a pessoa, não significa derrotar o mal ou a dor, mas ter cuidado, atenção, acolher as energias desconhecidas, os desafetos e as pulsões que têm o potencial de alumbrar a autenticidade da existência. Assim como uma flor de lótus que afunda suas raízes na lama, na água sombria, na noite escura, mas que brota e aflora na superfície a mais bela flor, a luz do dia. De acordo com CARL GUSTAV JUNG, VIVER é isso, é buscar a TOTALIDADE, NÃO A PERFEIÇÃO, é conseguir juntar, harmonizar, equilibrar e RE-PACIFICAR a luz e a sombra da personalidade. Pois, no dizer de Jung o maior desafio da existência é iluminar nossa escuridão.



Fragmento do artigo de autoria: Marco Bonatti (texto completo: https://www.psicanaliseclinica.com/arquetipo-mascara-e-sombra/)

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